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Telemetria e controle de combustível: como transformar dados da frota florestal em decisões melhores

Ilustração de máquina florestal conectada a uma rede de telemetria para controle de combustível e desempenho.

Em uma operação florestal mecanizada, combustível não é apenas uma despesa de abastecimento. Ele está ligado ao ritmo da produção, ao tempo ocioso, ao dimensionamento da frota, à manutenção e à forma como cada equipamento é utilizado. Quando esses fatores são acompanhados apenas por médias mensais, a gestão enxerga o resultado, mas não necessariamente a causa.

A telemetria muda esse cenário ao registrar dados operacionais diretamente das máquinas e organizá-los para análise. Sistemas disponíveis no mercado podem acompanhar localização, horas de motor, utilização, consumo de combustível, tempo em marcha lenta, alertas e manutenção.[1] O valor, porém, não está em acumular dados: está em transformar os registros em decisões práticas para a operação.

O que deve ser acompanhado

O primeiro passo é definir poucos indicadores que tenham relação direta com custo e produtividade. Entre os mais úteis estão:

  • consumo total por máquina e por período;
  • consumo por hora de motor;
  • consumo por unidade produzida, quando o dado de produção estiver disponível;
  • percentual de tempo em marcha lenta;
  • horas produtivas e improdutivas;
  • carga do motor e padrão de utilização;
  • distância percorrida e localização das frentes;
  • abastecimentos, variações inesperadas de nível e possíveis desvios;
  • alertas de falha e proximidade das manutenções programadas.

Na colheita mecanizada, o consumo precisa ser analisado junto com o contexto. Terreno, distância de extração, tipo de operação, volume movimentado, condição da máquina e experiência do operador podem alterar o resultado. Estudos com sistemas de gestão de frota mostram que dados de motor e de operação permitem avaliar consumo, produtividade, tempo das atividades e emissões ao longo de períodos extensos.[3] Outra pesquisa, baseada em dados padronizados de máquinas florestais, utilizou informações de motor para identificar fases de trabalho e estimar consumo por ciclo, considerando também distância e inclinação do terreno.[4]

Por isso, comparar apenas litros por hora pode gerar conclusões erradas. Uma máquina com consumo horário maior pode estar produzindo mais e apresentar custo menor por metro cúbico. O indicador mais útil é aquele que relaciona combustível à entrega realizada.

Marcha lenta: um ponto de atenção imediato

O tempo em marcha lenta costuma ser um dos primeiros indicadores a observar porque representa motor funcionando sem produção equivalente. A telemetria permite separar horas trabalhadas de horas ociosas e identificar padrões por máquina, turno ou frente de serviço.[1]

Nem toda marcha lenta é desperdício. Parte dela pode ser necessária para aquecimento, resfriamento, espera operacional ou segurança. O objetivo não deve ser eliminar o indicador indiscriminadamente, mas distinguir o tempo justificável daquele causado por filas, planejamento inadequado, comunicação deficiente, abastecimento mal programado ou hábitos operacionais.

A análise precisa resultar em uma ação concreta. Se o excesso ocorrer sempre na mesma etapa, o problema pode estar no balanceamento da frota. Se estiver concentrado em um equipamento, pode indicar necessidade de orientação ao operador ou investigação técnica. Se surgir antes do abastecimento, talvez seja necessário rever a logística de combustível.

Abastecimento e controle de desvios

O controle de combustível melhora quando registros de abastecimento e dados da máquina são comparados. Data, horário, quantidade, equipamento, horímetro e responsável devem formar um histórico consistente. Diferenças recorrentes entre o volume abastecido, a variação do tanque e o consumo registrado precisam ser investigadas.

A telemetria não substitui procedimentos de conferência. Ela funciona melhor quando integrada a regras claras de abastecimento, identificação do equipamento, calibração dos instrumentos e responsabilidade pelos registros. Também é importante considerar limitações de conectividade em áreas remotas. Algumas soluções utilizam comunicação celular e oferecem alternativas por satélite para locais com cobertura instável.[1]

O objetivo é criar rastreabilidade suficiente para responder a perguntas simples: quanto entrou, quanto foi consumido, em qual atividade, por qual máquina e com qual resultado produtivo.

Manutenção também influencia o consumo

Aumento de consumo nem sempre significa condução inadequada. Filtros, sistema de injeção, pneus ou material rodante, pressão hidráulica, implementos, calibração e falhas eletrônicas podem elevar o esforço exigido do motor. Por isso, consumo, carga, alertas e manutenção devem ser analisados em conjunto.

Sistemas conectados podem apoiar o acompanhamento de manutenção, emitir alertas e permitir diagnóstico remoto em equipamentos compatíveis.[1] A gestão ganha mais valor quando identifica uma tendência antes que ela resulte em parada, perda de produtividade ou aumento prolongado do consumo.

Uma referência histórica por máquina ajuda a reconhecer desvios. Em vez de adotar uma meta única para toda a frota, é mais adequado comparar equipamentos semelhantes em condições equivalentes e acompanhar a evolução de cada ativo ao longo do tempo.

Infográfico do ciclo de gestão da telemetria: coletar, validar, comparar, agir e medir.

Como transformar dados em rotina de gestão

Um painel eficiente não precisa ter dezenas de gráficos. Ele deve responder às decisões que a equipe toma diariamente, semanalmente e mensalmente.

Na rotina diária, podem ser observados alertas críticos, nível de combustível, máquinas sem atividade e ocorrências fora do padrão. Semanalmente, a equipe pode comparar marcha lenta, consumo, horas produtivas e disponibilidade. Mensalmente, os dados podem apoiar análises de custo, manutenção, desempenho por frente e adequação do tamanho da frota.

Para que isso funcione, é necessário estabelecer:

  1. indicadores com definição única;
  2. responsáveis pela conferência e análise;
  3. critérios para investigar desvios;
  4. registro das ações tomadas;
  5. comparação posterior para verificar se houve melhora.

A qualidade dos dados também precisa ser auditada. Estudos com coleta automatizada destacam que os registros exigem limpeza, interpretação e validação antes de orientar decisões.[3] Pesquisas com identificação automática de ciclos apontam limitações e reforçam a importância de combinar análise estatística com conhecimento dos operadores.[4]

Pessoas continuam no centro da decisão

Telemetria não deve ser utilizada apenas como instrumento de cobrança. Quando o operador entende quais indicadores são acompanhados e por quê, os dados podem apoiar treinamento, segurança e melhoria do processo. A experiência de campo ajuda a explicar situações que um painel isolado não consegue interpretar.

O melhor resultado aparece quando gestão, manutenção e operação analisam os mesmos dados e discutem as causas. Assim, uma diferença de consumo deixa de ser apenas um número e passa a orientar ações: ajustar a logística, redistribuir equipamentos, revisar procedimentos, programar manutenção ou aperfeiçoar a operação.

Conclusão

Telemetria e controle de combustível podem aumentar a visibilidade sobre custos e desempenho da frota florestal. Para isso, é preciso relacionar consumo, produção, tempo ocioso, condição da máquina e contexto operacional.

A tecnologia fornece os registros. A eficiência vem da disciplina de conferir os dados, investigar desvios, tomar decisões e medir os resultados. Com esse ciclo de gestão, o combustível deixa de ser apenas um custo consolidado no fim do mês e se torna um indicador para melhorar produtividade, disponibilidade e planejamento.

Fontes

[1] https://www.deere.com/en/technology-products/forestry-and-logging-technology/core-technology-features/index.html — Core Technology | Forestry & Logging Technology | John Deere [3] https://mdpi.com/2071-1050/14/24/16751 — Efficiency Assessment of Fully Mechanized Harvesting System through the Use of Fleet Management System [4] https://doi.org/10.1007/s10342-025-01811-3 — Modelling full stems skidding in northeast Italian Alps through engine data acquisition and analysis

Henrique Safar — Diretor. Atua desde 2018 na mecanização da colheita e no desenvolvimento de operações de subsolagem.
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